10 anos de Desafio Global: um olhar sobre o mercado
12.7.2011

Há uns anos atrás, os clientes trocavam Desafio Global por Desafio Total, por exemplo. Hoje dificilmente alguém comete este erro. A Desafio Global completa dez anos de actividade em 2011 e é um nome incontornável no mercado da organização de eventos corporativos. A Event Point não deixou passar a ocasião e fez uma grande entrevista a Pedro Rodrigues, director da empresa. A primeira parte desse trabalho pode ser lida na edição de Junho, à venda nas bancas.

 

Qual o papel hoje em dia de um gestor de eventos?

O gestor de eventos hoje tem de ser um agregador de valor. Fazendo um paralelismo com a área de activação de marca ou de vendas, que tem briefings fechados e orçamentos definidos, nos eventos isso nunca foi assim. De facto, a responsabilidade é sempre passada para um especialista, o organizador de eventos. Isso faz com que tenha que ser um agregador de valor. Muitas vezes o que o cliente diz no briefing é a data do evento. O local, o formato, os detalhes são da nossa responsabilidade. E temos que cumprir as expectativas do cliente e dos participantes do evento, que vão sempre comparar com o evento do ano passado, com o da marca concorrente. Portanto há sempre enormes expectativas que o gestor de eventos não pode defraudar.

Faz sentido criar ou reconhecer legalmente o organizador de eventos?

É uma guerra antiga nomeadamente no que diz respeito à tutela deste sector. Deve estar no Turismo ou na Economia? É uma área eminentemente económica ou uma actividade turística? Desde que isso não seja castrador. No fundo toda a gente faz eventos hoje em dia, empresas de design, consultoria, recursos humanos…Não parámos de trabalhar por causa disso.

Não há uma situação ideal?

Talvez uma certificação de organizador profissional de eventos. Somos a favor de tudo o que sirva para certificar as empresas.

Quem poderia atribuir essa certificação?

Das duas uma: ou a sociedade civil, ou uma entidade que pudesse tutelar, nomeadamente, o Ministério da Economia.

A palavra evento está de alguma forma banalizada?

Está relativamente generalizada. Não me choca por enquanto, mas acredito que possa evoluir para outro tipo de classificações. Há alguns anos atrás havia muito a figura do organizador de eventos, o freelancer. Assiste-se mais a essa efervescência em alturas de prosperidade económica do que na altura actual.

A formação nesta área também veio ajudar a isso?

Se quisesse ser politicamente correcto diria que sim, mas o que eu vejo é que certas entidades formadoras olharam para a área de organização de eventos como uma oportunidade mais comercial do que pedagógica. As centenas de profissionais que estão a ser lançados no mercado, onde estão hoje em dia? Uma percentagem residual encontrou ocupação na área dos eventos. Mas acredito que uma boa percentagem dessas pessoas não encontraram saída profissional nessa área. Era uma boa oportunidade para perguntar às entidades, nomeadamente à APECATE, quantas pessoas se empregaram com formação específica na área de eventos. Se calhar vamos ter um choque com a percentagem reduzida de situações que se encaixam nessa realidade. Como o mercado está estagnado a nível de contratação e como as empresas quando empregam continuam a preferir quem já tenha experiência profissional, se calhar há centenas de profissionais que hoje estão a ser lançados e que depois não encontram saídas profissionais.

Olhando para esse exemplo da APECATE que está organizada em três secções – eventos, congressos e animação turística -, será que essas divisões fazem sentido ou tendem a esbater-se de alguma forma?

Acho que não. São mercados tão distintos e tão específicos. As preocupações da animação turística são totalmente distintas das preocupações de um organizador profissional de congressos. A actividade, o dia-a-dia e os clientes de um organizador profissional de congressos não têm nada a ver com os do organizador de eventos. Acho que são mercados, profissionais, empresas e preocupações distintas. A forma como a entidade tutela e gera as expectativas dessas pessoas é o desafio.

O conceito de sustentabilidade é algo que se vai impor na área dos eventos?

Olhamos para a questão da sustentabilidade com “mixed feelings”. Estivemos de fora a assistir à questão da sustentabilidade e todos nós nos questionamos. Toda a gente reconhece a importância disso. Muitas vezes há acções que se apoiam no conceito de sustentabilidade mais por uma questão de marketing do que por uma questão de acreditar efectivamente nessa sustentabilidade. Se pudermos ter opções sustentáveis nos eventos teremos opções sustentáveis. Há uns anos os espanhóis começaram a perguntar aos organizadores de eventos se estavam preocupados com a questão da sustentabilidade. 95% diziam que sim. Se a queriam nos seus eventos, 95% diziam que sim. Mas quando perguntavam se estavam dispostos a gastar mais um euro na questão da sustentabilidade a resposta foi não. Isto no limite encerra também uma mensagem para os fornecedores e organizadores de eventos. A sustentabilidade deverá ser uma realidade, mas uma realidade sentida e não meramente por questões de comunicação. O truque está em arranjar forma de fazer isto sem custos acrescidos. Hoje em dia não utilizamos telas impressas, utilizamos leads. Tentamos que o catering seja reutilizado para doar a instituições de caridade. Imprimimos o mínimo de coisas possível. A forma como os eventos são feitos com menos recursos é um acto de sustentabilidade. Uma sustentabilidade forçada pela realidade de mercado.

Olhando para 2011, há duas ou três tendências para o mercado?

Obviamente que uma das tendências é racionalizar custos. Não deixa de se fazer eventos, são é feitos de forma muito mais eficiente.

Se pudesse, o que mudava já no sector dos eventos em Portugal?

Mudaria acima de tudo a dinâmica da APECATE. O que o sector mudou ao longo dos anos, infelizmente não foi acompanhado por um trabalhado desenvolvido pela associação na área dos eventos em prol dos associados. De resto acho que o mercado as empresas estão bem. Não sinto essa necessidade de mudar como sinto ao nível associativo.

Cláudia Coutinho de Sousa
Rui Luís Romão

 

 

Entrevista: Protocolo.pt comemora quatro anos
24.3.2011

É uma ferramenta ao dispor dos organizadores de eventos. O blog http://protocolopt.blogspot.com, um projecto de Cristina Marques Fernandes  e de Susana de Salazar Casanova, é actualizado diariamente com temáticas directa e indirectamente relacionadas com o protocolo e os eventos. O projecto cumpre agora quatro anos, pelo que fomos conversar com as autoras, e procurar perceber o que evoluiu nos últimos anos em relação a estas temáticas..

O projecto do protocolopt.blogspot.com arrancou há quatro anos. O que esteve na sua base, e quais eram as vossas expectativas na altura?

O blog protocolopt.blogspot.com foi criado pela Cristina Marques Fernandes. Contudo, imediatamente após a sua criação foi encarado, por ambas, como um desafio e como um meio privilegiado para compartilhar informação. O conhecimento é algo que tem que ser partilhado, esta é a força motriz subjacente a este projecto. Aliás, a missão do blog é: “Cristina Marques Fernandes e Susana de Salazar Casanova, em parceria, criaram e mantêm este blog com o objectivo de partilhar informação de Protocolo, Cerimonial, Imagem Pessoal e Profissional,Organização de Eventos”.

A razão da existência do blog está directamente associada à investigação que já fazíamos, em paralelo com as nossas vidas profissionais, de temas da actualidade protocolar, mas foi determinante para o seu desenvolvimento o estímulo que fomos recebendo dos nossos leitores e formandos ao longo de todos estes anos! Foram os seus contributos e apoio permanentes que nos incentivaram a fazer cada vez mais melhor e, sobretudo, a não desistir! À medida que fomos aprofundando o nosso conhecimento, fomos ganhando interesse por áreas relacionadas com o protocolo e alargámos o âmbito dos assuntos abordados. São disto exemplo temas como a imagem pessoal e profissional, algumas matérias de marketing, comunicação e hotelaria, bem como a organização de eventos e o protocolo multicultural (estes dois últimos muito directamente associados ao tema “core”).

Depois, naturalmente, como pessoas empenhadas que somos, temos pelo blog, e pelos muitos leitores que nos têm acompanhado, um grande carinho. Por isso, reiteramos continuamente a nossa promessa: “Estudaremos ainda mais, pesquisaremos ainda mais, faremos ainda mais e muito melhor! Não desistiremos, surpreenderemos, inovaremos – esta é a missão a que nos propomos, que deixamos aqui hoje expressa”. Tudo faremos para manter este espaço actualizado, activo e interessante para o público.

Essas expectativas foram superadas?

As nossas expectativas foram largamente superadas. Se considerarmos que se trata de um blog profissional, que aborda temas muito específicos, ter recebido desde a sua criação cerca de 424.000 visitas, contar com 273 fiéis leitores que recebem via e-mail os “posts” publicados… entendemos que é realmente muito bom e, acima de tudo, uma grande honra para ambas!

Note-se que actualmente, além dos habituais contactos e comentários, recebemos frequentemente pedidos de divulgação de iniciativas diversas, provenientes de organizações nacionais e internacionais. Ora, esta é uma prova de reconhecimento de notoriedade do blog.

Nos últimos quatro anos, como espectadoras e intervenientes atentas deste universo dos eventos, consideram que há maior sensibilidade em relação às questões ligadas ao protocolo? Ou ainda há um caminho longo a percorrer?

Apesar do notável trajecto que algumas organizações têm feito nesse sentido, designadamente certas empresas de organização de eventos, entendemos que todavia existe algum caminho a percorrer. O protocolo ainda é encarado por muitos como um amontoado de regras aborrecidas das quais é preciso “fugir a sete pés”. Contudo, quando se percebe que o protocolo existe para, entre outros aspectos, conferir uma imagem de prestígio, profissionalismo, credibilidade, então os mesmos que o rejeitavam passam a encará-lo como indispensável. É muito interessante e gratificante acompanhar estes processos de viragem!

Quais são as principais falhas em termos de protocolo nos nossos eventos?

Improvisar e confiar na sorte; Não ter em conta o costume ou hábito nem o contexto espacial, temporal e social dos participantes; fazer de uma determinada forma porque "sempre se fez assim" ou porque “o chefe mandou fazer assim”; emitir convites com textos incompletos e/ou incorrectos; não gerir cuidadosamente a lista de convidados; entender que não é necessário receber, acompanhar e despedir os convidados, excluindo, dessa forma, o papel de anfitrião; descuidar o “seating” e as presidências; fazer, ou permitir que se façam, longos e mal preparados discursos; ignorar a legislação e demais regras sobre precedências, ordenando autoridades e símbolos... por intuição!

Em termos de formação nesta área, como vêem o cenário actual?

Desde que iniciámos a nossa actividade nesta área, há já quase 10 anos, o mercado alterou-se radicalmente, passando-se da oferta quase inexistente à excessiva, com acções de formação de qualidade por vezes duvidosa, ministradas por instituições sem notoriedade reconhecida neste domínio e por formadores que, com o devido respeito, não raramente não têm, sequer, formação nestas matérias!

É muito tentador ler dois ou três livros, frequentar uma formação ou um curso, manter uma vida social muito activa e achar que se detém as competências necessárias para ministrar formação em Protocolo… Acontece que, a ambas, este cenário não satisfaz.

Após termos feito em Portugal a formação existente nesta área (a 1ª edição da Pós-Graduação em “Imagem, Protocolo e Organização de Eventos” do ISLA/Lisboa), fomos para Madrid para a Escola Internacional de Protocolo, depois para Barcelona, e, posteriormente, para Bruxelas (“Europrotocol” e “International School of Protocol”). Das pós-graduações passámos aos mestrados [a Susana concluiu em 2010 o Master Internacional em “Gestão e Organização de Eventos, Protocolo, Cerimonial e Relações Institucionais” da “Universidad Camilo José Cela” (Madrid) e a Cristina é Mestranda em Ciências da Comunicação, na Universidade Católica Portuguesa]. E continuamos sempre a estudar, pelo inesgotável gosto que temos por estas matérias e pela actividade docente que desenvolvemos e que também assim o exige!

O que podemos esperar nos próximos anos do vosso projecto? Há algum livro na forja?

Na actual conjuntura não é sensato apresentar previsões ambiciosas, mas pretendemos consolidar a nossa posição no mercado, caminhando lenta mas seguramente. E sim, há um livro na forja…

Cláudia Coutinho de Sousa

Entrevista a Arnaldo Nardone, presidente da ICCA
14.3.2011

O responsável máximo da ICCA (International Congress and Convention Association) esteve em Portugal para a reunião do Capítulo Ibérico da associação, que decorreu no Estoril, nos dias 9 e 10 de Março. Para além de uma jornada formativa, o evento serviu também para eleger o novo presidente do Capítulo, Frank Garcia, do Centro de Convenções de Barcelona. Pedro Rocha dos Santos, do Centro de Congressos do Estoril e Paula Catita, do Centro Cultural de Belém fazem parte da comissão executiva.

No final, à Festas&Eventos, Arnaldo Nardone confessou-se muito agradado com o evento, destacando a qualidade dos oradores presentes. O responsável acredita que a crise económica não vai afectar o sector da meetings industry, sobretudo as empresas que trabalham o mercado associativo. As que estão somente vocacionadas para o mercado corporativo têm a vida mais dificultada. Arnaldo Nardone realça ainda como caminho para as empresas portugueses o mercado latino-americano. Veja a entrevista ao responsável.

Arnaldo Nardone no congresso do Capítulo Ibérico da ICCA from festaseeventos on Vimeo.

Cláudia Coutinho de Sousa

António Brito reconhecido pela IAEE
31.12.2010

A IAEE – International Association of Exhibition’s & Events entregou durante a EXPO! EXPO!, em New Orleans o prémio 2010 Chairman's Award a António Manuel Brito, director da NewEvents e principal impulsionador do programa CEM (Certification in Exhibition Management ) em Portugal. Fomos conversar com António Brito, director da NewEvents.

Festas&Eventos: Qual é a importância do prémio que acabou de receber em Nova Orleães?

António Brito: o IAEE Chairman's Award é um prémio proposto pelo Chairman da IAEE após consulta e votação no conselho de directores e destaca uma figura pelo seu profissionalismo e competência na indústria de feiras a nível mundial. O prémio não é atribuído anualmente, mas somente quando IAEE entende que existe alguém que na realidade se destacou. Em mais de 70 anos desta associação de profissionais de feiras a nível mundial só cerca de 10 personalidades receberam este galardão, tendo eu sido o primeiro europeu distinguido. Sem dúvida, é um prestígio ser reconhecido por uma associação que representa mais de 35000 profissionais em todo o mundo no
principal evento dedicado a industria de feiras, a Expo!Expo!. Gostaria de estender o prémio a todos
aqueles que como eu trabalham nesta área e muitas das vezes sem reconhecimento, conforme tive oportunidade de dizer no meu discurso de entrega do prémio

F&E: Foi a principal distinção da sua carreira?

AB: A este nível, sim. Existiram outros atribuídos por diversas instituições europeias e sul-americanas, mas com a importância deste não

F&E: Para quem não conhece o que é o CEM?

O cem é, em primeiro lugar, um programa educacional dirigido a organizadores de feiras e eventos que permite obter conhecimentos técnicos e práticos sobre a organização de feiras e eventos. Em segundo lugar permite obter a única certificação em Exhibition Management reconhecida em todo o mundo e que confere aos profissionais o reconhecimento de excelência na organização de feiras e eventos. Em colaboração com a IAEE somos, desde 2008, co-organizadores do programa CEM em Portugal e Espanha, tendo já sido reconhecido com a qualificação CEM cerca de 15 profissionais em ambos os países. Neste momento estão a realizar o programa cerca de 10 profissionais. Este programa permite obter conhecimentos técnicos de uma forma prática e interactiva sobre diversos aspectos organizativos, desde o desenvolvimento de um projecto, a como captar visitantes e expositores, como organizar conferências, sponsorização e orçamentos, entre outros. Para obter
a certificação é necessária a frequência de 9 módulos, tendo cada um deles um exame no final para obter aprovação. O CEM foi desenvolvido em 1975 e já certificou milhares de profisionais em todo o mundo.

F&E: Que impacto pode ter este reconhecimento internacional na implementação deste programa em Portugal?

AB: Sobre o CEM, sem dúvida. É fundamental, num mundo cada vez mais competitivo e exigente na procura de profissionais de excelência hoje em dia já o CEM já é um factor diferenciador no mercado de trabalho. Quanto ao prémio tenho recebido diversas felicitações de colegas de todo o mundo, mas de qualquer modo o mais importante é o nosso trabalho do dia-a-dia marcar a diferença nesta indústria para que ela contribua de uma forma dinâmica para o desenvolvimento das economias. Este é, sem dúvida, esse e o principal reconhecimento: ver empresas e pessoas a usufruírem das oportunidades que criamos com uma feira e a desenvolverem negócios que incrementam a sua actividade comercial.

F&E: Como vê o sector das feiras em 2011? Há motivos para estar optimista?

AB: Sou optimista por natureza. Se não formos positivos só vamos atrair o que há de negativo, as crises geram oportunidades e as feiras são barómetros da economia e sem elas as empresas não têm ferramentas para dinamizar o seu negócio. No entanto, o momento também deverá servir para observarmos e prepararmo-nos devidamente para os anos de ouro que virão mais cedo ou mais tarde. Apostar em novos nichos, na educação, no conhecimento, olhar com olhos de ver novos mercados, preocuparmo-nos em ver que existe uma floresta para alem da árvore, e principalmente termos confiança e auto-estima, mas sobretudo entender que nada dura para sempre e as crises também não. Por outro lado considero importante perceber o que é fundamental e o que é acessório. As novas tendências da indústria têm hoje muito a ver com a qualificação dos visitantes. O grande desafio do futuro é perceber as necessidades de cada visitante e apresentar soluções individuais. Isto marcará a diferença de uma feira com sucesso, hoje, e no futuro.

Cláudia Coutinho de Sousa
 

Aprender com os erros, a experiência de uma portuguesa no COP 15
13.12.2010

Rita Sousa esteve presente na COP 15 fazendo parte da delegação de clima do Ministério do Ambiente. Quisemos saber as impressões pessoais da especialista em sustentabilidade sobre o evento de Copenhaga, a cumprir exactamente um ano desde a realização, e de que forma este serviu como exemplo a futuros acontecimentos.

Festas&Eventos: Um estudo da Siemens apresentado em Copenhaga dá conta de que a capital da Dinamarca é a mais "verde" da Europa. De que forma é isto percepcionado no dia-a-dia da cidade?

Rita Sousa: Põe-se o pezinho fora do avião e sabe-se logo quanto custou a nossa viagem “ao clima”, seja pelos transportes, energia, ou então nos próprios produtos, serviços. Tudo é contabilizado, medido e poupado. Os táxis com as emissões de gases com efeito de estufa compensadas são a regra, o uso generalizado das bicicletas onde carregam cestos de legumes, comida e as crianças - isto com neve e -10ºC -, e muitas outras “novidades” como os bilhetes de autocarro no telemóvel para poupar papel, ou a proliferação dos produtos diários de limpeza “verdes” e de mercearia “biológicos”, na grande maioria das prateleiras dos supermercados, e das mais variadíssimas marcas. Mas o melhor exemplo foi mesmo quando entrei numa pastelaria igual-a-outra-qualquer, onde comprei um bolinho, e me entregaram, com o troco, o recibo com a nota da gramagem de CO2 emitida no ciclo de vida do dito bolinho. Já não são só as calorias que fazem peso na consciência!

F&E: De que o forma o evento em si foi sustentável? Pode dar-nos alguns exemplos práticos?

RS: A presidência dinamarquesa da COP15, fazendo jus às suas políticas nacionais, e ao tema propriamente dito, tentou que o evento fosse o mais climaticamente e ambientalmente responsável possível. Com 80% da comida oferecida biológica, com o reforço muito explícito à poupança de CO2 associada ao prato vegetariano, até à utilização de materiais reciclados e recicláveis para os copos, talheres, etc., o que mais me ficou na memória foram os quadradinhos de chocolate de comércio justo oferecidos com o café. Os transportes do centro da cidade para o Bella Center (o metro e autocarros próprios) bem coordenados, e uma torre eólica à entrada do centro que fornecia alguma energia completavam o rol de medidas promotoras da sustentabilidade da COP15, a reunião mais esperada pela “comunidade climática” mundial.

F&E: Ainda em relação à sustentabilidade do evento, o que é que poderia ter sido feito e não foi? Algum aspecto a apontar?

RS: O excesso de pessoas foi o grande aspecto negativo. Quando na semana ministerial é preciso limitar a entrada aos participantes que não fazem parte da negociação, isto é, às organizações não governamentais de ambiente, de desenvolvimento, empresariais e industriais, que correspondem a mais de metade dos participantes, engendrando um segundo cartão de acesso, então é sinal que algo não foi bem preparado. Estamos a falar de 45 mil pessoas acreditadas para um espaço de 15 mil! Já na primeira semana havia indícios de que isto poderia acontecer, com as filas intermináveis de pessoas à espera debaixo de neve, durante várias horas, para a acreditação inicial de entrada. O espaço e as condições não foram projectados para todos os interessados, e na segunda semana, em que chegavam os ministros e chefes de Estado, a organização não pôde correr o risco de ultrapassar ainda mais a capacidade do Bella Center, bloqueando acessos, e tornando - então já inevitavelmente - o evento insustentável.

F&E: O evento de Copenhaga pode servir de standard a próximos grandes eventos?

RS: Sim, a COP15 pode ser um benchmark se incluirmos "aprender com os erros". Nas medidas materializadas em produtos, energia e transportes o standard pode e deve ser seguido, até porque não se espera a mediatização tão grande de nenhuma conferência mundial deste tipo nos próximos anos, assim como não tinha existido nenhuma outra antes. Não se pode esquecer que os chefes de Estado e principais representantes dos países-chave estavam presentes. Por outro lado é preciso cada vez mais ter a consciência de que as populações são parte interessada, envolvidas na tomada de decisão, e não se fecham numa esfera distinta aguardando que os “seus” políticos tomem todas
as decisões de forma independente. Os cidadãos querem cada vez mais participar, e de uma forma “fisicamente” presente. E portanto é necessário conhecer bem estas novas pessoas para, de forma real, se contabilizar o público que pode, quer e deve comparecer.

 

Cláudia Coutinho de Sousa

Inquérito:
Internacionalização é um caminho para a sua empresa?
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