25.1.2012
Miguel Corais, presidente da Associação Portuguesa de Feiras e Congressos
Miguel Corais: "Há feiras a mais em Portugal"

Credibilizar o conceito de feiras de negócios, reivindicar a importância deste sector na promoção da economia, reforçar a ligação com associações congéneres internacionais são alguns dos objectivos da nova direcção da Associação Portuguesa de Feiras e Congressos (APFC), liderada por Miguel Corais. O administrador do Parque de Exposições de Braga, em entrevista à Event Point, analisa o panorama das feiras em Portugal, a necessidade de regulamentação e revela os primeiros detalhes sobre o Congresso da União de Feiras Ibero-Americanas, organizado em parceria pela APFC.

Event Point: Quais são os principais objectivos desta direcção da Associação?

Miguel Corais: Os principais objectivos são: dar maior visibilidade e importância a esta associação na defesa dos interesses do sector; alargar o número de associados, mas desde que organizem feiras e congressos dentro dos parâmetros de qualidade definidos por nós; credibilizar o conceito de feiras de negócios; reforçar a relação com associações e empresas ligadas, a montante ou jusante, às feiras e congressos; reivindicar junto de várias instâncias, públicas e privadas, a importância que temos como instrumento de promoção da economia, das exportações, do turismo e do território português, criando uma visão integrada com toda a fileira do MICE; reforçar a relação com as associações congéneres internacionais, principalmente a AFE (Associação de Feiras Espanhola); por último, organizar com qualidade o Congresso da UNIFIB (União de Feiras Ibero-Americanas) que em 2012 será em Portugal e que será uma grande oportunidade para nos afirmarmos.

EP: Uma associação com tão poucos membros é bem representativa do sector?

MC: Esta associação detém os principais e mais reconhecidos operadores em Portugal do sector de feiras e congressos. Indubitavelmente, se falarmos do sector das feiras, os mais representativos e mais fortes estão integrados nesta associação. Quando falamos de feiras em Portugal, falamos na FIL, na Exponor, no Parque de Exposições de Braga e na Exposalão na Batalha. Estes são os mais significativos e com mais massa crítica. Claro que estamos abertos, e empenhados, a que outros se possam associar, inclusive neste mandato um dos objectivos definidos é o crescimento de associados, nomeadamente operadores que estejam directamente ligados aos congressos, uma vez que ao nível das feiras não haverá muitos mais operadores a associar-se. Contudo, o mercado de feiras e congressos em Portugal será sempre reduzido, comparando com outros países, mas são dois sectores com bastante valor para a nossa economia e que, claramente, são complementares.

EP: Quais os critérios de admissão de novos membros?

MC: Queremos crescer, mas dentro dum processo que dê credibilidade ao sector e crie valor para o mesmo. Entendemos que a APFC deva ser a associação que represente este sector, mas que signifique qualidade. Como tal, estamos a trabalhar na definição de um conjunto de padrões e requisitos mínimos para entrarem, nomeadamente ao nível da infra-estrutura, organização, meios e serviços disponíveis. Queremos definir alguns requisitos, embora simples e sem muita burocracia. O objectivo é representar o sector, mas de modo a que os vários interlocutores percebam que estamos a trabalhar em parâmetros que este tipo de sector exige. O sector de feiras e congressos, pela sua importância, exige muito profissionalismo e qualidade. Embora em Portugal, devido a uma total desregulamentação, haja muitas feiras e congressos sem qualidade, projectando uma imagem negativa para o exterior.

EP: O sector das feiras é normalmente um dos primeiros a sofrer com as crises. Como dar a volta a esta situação?

MC: O sector da feiras está muito ligado ao contexto económico. Quando a economia está a crescer, este sector é uma grande alavanca para as empresas angariarem clientes e quota de mercado. Em Portugal, na fase em que estamos em que o mercado interno está totalmente estagnado e há uma enorme necessidade de internacionalização da nossa economia, quer através das exportações, quer através da captação de IDE (Investimento Directo Estrangeiro), temos que usar as feiras como alavancas dessa estratégia, como fazemos quando a economia está em crescimento. Ou seja, temos de nos associar a todo este processo e desígnio nacional de internacionalização e ambicionar também a internacionalização das nossas feiras. Aí estaríamos a alavancar quatro objectivos estratégicos para Portugal, no actual momento: contribuir para a internacionalização da nossa economia, através do aumento da nossa capacidade exportadora em vários mercados, promover Portugal como destino turístico, racionalizar os recursos e diminuir o nosso défice externo e, por último, mas não menos importante, dinamizar a nossa economia local.

EP: Que medidas poderiam ser adoptadas para alavancar este sector?

MC: O princípio aqui a aplicar é perceber que este sector vale muito mais e cria valor para além das instituições envolvidas. Temos que conseguir que outras entidades, públicas e privadas, definam as feiras e congressos como instrumentos importantes de alavancar os seus objectivos estratégicos. As feiras e congressos em Portugal têm de ser a “ferramenta” para muitos sectores e instituições. Para tal, no que diz respeito às feiras, uma das formas de ganhar uma maior dimensão internacional é aumentar a capacidade de financiamento dos “Programas de Grandes Compradores Internacionais” (Hosted Buyers Programs), permitindo que as nossas feiras possam promover as nossas exportações. Este tema é muito importante e como estamos numa fase em que racionalização de custos é o mote, bastava que, por um lado, déssemos prioridade a este tipo de projectos em detrimento do financiamento na presença de algumas feiras internacionais e, por outro lado, que as várias instituições em Portugal, muitas delas públicas ou financiadas com dinheiros públicos, que acabam por financiar a presença de "Grandes Compradores" e jornalistas de renome em Portugal em diferentes alturas do ano, se articulassem com algumas feiras do sector. Em ambos os casos, cumpriríamos os mesmos objectivos, mas com maior valor e efeito multiplicador para a nossa economia. Não nos podemos esquecer que quando temos os "Grandes Compradores" cá não concorremos com outros mercados, permitimos que estes possam visitar as instalações das nossas empresas, alavancando deste modo a marca “Portugal”. Esta é aposta, pelo menos, devia ser feita nos sectores onde temos grandes interesses internacionais, como por exemplo, no sector dos vinhos, calçado, têxtil e tecnologias.

EP: Proliferam feiras, maiores e mais pequenas, de vários sectores e por todo o país, às vezes com sobreposição de datas. Como vê o panorama das feiras em Portugal?

MC: Penso que há feiras a mais em Portugal, principalmente a vulgarização da denominação de eventos de feiras. Muitas delas são festas e não feiras. Vejo claramente que estamos numa fase de selecção natural e acredito que muitas vão sofrer grandes alterações e surgirão outras novas feiras. Acreditamos que o sector das feiras precisa duma regulamentação e a APFC deve, à semelhança de outros sectores que passaram por este processo, ser  o veículo, conjuntamente com o Governo Central, para regulamentar, credibilizar e qualificar o sector. Também por esta questão, vai ser importante aos operadores do sector associarem-se à APFC. Mais uma vez repito, este é um sector que deve dinamizar a economia, servir os interesses estratégicos do nosso país, introduzindo a componente internacional. Ora, não podemos correr o risco dos estrangeiros nos visitarem, terem expectativa que as nossas feiras e congressos sejam qualificadas, como são em qualquer país europeu, e depois presenciarem algo que deixa muito a desejar em termos de qualidade.

EP: E em termos do organizador de feiras, deveria existir uma certificação das empresas?

MC: Penso que é algo que seria importante e temos de encontrar a oportunidade no tempo para chegarmos a esse patamar. Faz sentido num sector supostamente muito exigente, em que a maioria dos clientes / expositores são empresas altamente profissionalizadas, que qualquer pessoa sem experiência e qualificação possa organizar feiras e em qualquer local? Desta forma valorizamos o sector, criávamos uma maior confiança junto dos potenciais expositores e visitantes, ao mesmo tempo que abríamos novas oportunidades a este tipo de profissionais.

EP: Vão organizar em 2012 o Congresso da União de Feiras Ibero-Americanas. O que é que pode adiantar sobre o evento?

MC: Este evento vai decorrer de 21 a 23 de Junho, no Norte de Portugal, na Exponor, e vamos tentar incluir uma passagem por Braga. Apesar de ser organizado em conjunto com a AFE – Associação de Feiras Espanholas e a AFIDA – Associação Internacional de Feiras da América Latina, para nós será um grande momento que queremos aproveitar para dar mais visibilidade à APFC e permitir sensibilizar para as nossas questões os vários operadores de mercado do turismo e eventos. Será certamente um evento que nos permitirá lançar as nossas questões e assumirmos outra importância em Portugal. O tema será “O Futuro - Cooperação e Novos Desafios”. Queremos que neste evento os portugueses possam aproveitar para lançar projectos de cooperação num mercado emergente e em crescimento como o da América Latina. À semelhança dos interesses do nosso país,  defendemos uma visão articulada e integrada. Para nós o Brasil é de extrema importância, quer pela lusofonia quer pela importância (actual) deste mercado. Por outro lado, a Península Ibérica é um mercado prioritário para nós e a América Latina pode ser um prolongamento deste mesmo mercado em alguns sectores.

Cláudia Coutinho de Sousa

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